O truque do IPI zero


Estou com dengue e direto na cama. Quando a dor de cabeça deixa, estou lendo o Kindle Book “Thinking, Fast and Slow” de Daniel Kahneman. O livro trata da maneira na qual o cérebro toma decisões simples e cotidianas, no menor tempo possível e procurando o menor esforço. O livro é completo, fala da mente humana, descreve um modelo tão bem elaborado do ciclo de tomada de decisão do cérebro que eu penso ser possível criarmos um programa de computador que implemente esse modelo.

Quando ouvimos muito sobre alguma coisa, ela deixa de ser um estranho para o nosso cérebro e nos passa a condição de que é algo familiar e não perigosa. Há empresas e governos que investem pesadamente na repetição para passarmos a confiarmos nelas. Além da repetição, o livro fala também do “cognitive bias“, ou seja, das conclusões erradas que chegamos quando uma notícia ou publicidade diz expressões soltas, cujo idéias nos leva a associações erradas e entendemos algo que a notícia e propaganda não disse diretamente. Mas queria que entedêssemos dessa forma. Complicou? Vou ao meu caso:

O caso em discussão aqui é sobre a campanha da Redução do IPI. Esse fato apareceu em toda a mídia. Jornais, governo e a indústria de automóveis investiram muito tempo e dinheiro ao tema do IPI Zero durante do ano de 2012. Toda a campanha de venda de carros dizia que o preço dos carros não tinham IPI e que era a grande oportunidade de comprar seu carro novo. O cérebro, juntando as ideias “redução do IPI” e “oportunidade de comprar” logo entendeu de que os carros estavam mais baratos (cognitive bias). Lamento amigos leitores: Os preços dos carros não estavam mais baratos.

Não lembro de nenhum comercial de televisão dizendo que o valor dos preços dos carros abaixaram. Só dizia que os preços estavam sem IPI. O comercial não dizia: “APROVEITEM QUE OS PREÇOS DOS CARROS BAIXARAM!”. O que eles diziam era: “APROVEITEM A REDUÇÃO DO IPI!”. E isso não era sinônimo de que os preços tinham abaixado. Mas, o nosso cérebro, grande pregador de peças, fazia-nos acreditar que o preço final dos veículos tinham abaixado.

Garanto que quem comprou carro zero em 2012 provavelmente pagou mais do que pagou na sua última compra mais a inflação do período. Se não foi isso, comprou um carro pior. Mas saiu com a sensação de ter aproveitado uma oportunidade só por causa que isso foi repetido muitas vezes. Eu confesso que tentei comprar um carro em 2012, mas, infelizmente, o meu desconfiômetro que está travado no botão ON quando se trata de grandes quantias, permitiu-me perceber que algo estava muito errado.

Cheguei a concessionária em Outubro do ano passado. A loja estava cheia. Definitivamente, o cenário não era compatível com a de um setor em crise e que precisava de ter ajuda do governo. O ponteiro do desconfiômetro começou a balançar.

Eu tinha feito a minha tradicional simulação do carro no site do fabricante. Todo site de automóveis que preste tem uma opção para você montar o seu carro e ele mostra o preço da tabela conforme as opções escolhidas. Em todas as compras anteriores, eu sempre negociei um desconto sobre o valor da tabela.

A minha surpresa foi, ao ser atendido, é que o valor da concessionária estava mais caro do que o valor do site do fabricante! Isso nunca tinha ocorrido antes. E quando eu tentei negociar um desconto, pareceu que eu estava sendo um abusado e cara-de-pau, pois, segundo as próprias palavras do atendente, o preço já estava com desconto de IPI e não tinha como tirar mais nada.

Saí da concessionária. Triste pela situação de quem estava sendo enganado lá dentro. A loja estava cheia e eles não queriam muito papo com quem queria negociar. Queriam apenas as presas fáceis. E, eles sabiam, estavam cheia delas lá dentro da loja disputando atendimento.

A última observação que eu faço é sobre o impacto do preço nos índices da inflação oficial. Eu desconfio que a inflação oficial de 2012 foi artificialmente mais baixa do que deveria no item da variação dos preços dos automóveis pois, o IBGE, deve consultar os preços de tabela do fabricante que, naturalmente, estava sem o ‘ágio’ cobrado pelas suas concessionárias.

Talvez, tomara, que o meu caso tenha sido isolado. Eu não fiz nenhuma grande pesquisa estatística para escrever este artigo. Só citei um caso no qual eu passei. Concluo dizendo que recomendo a leitura do livro. Estar consciente da maneira na qual tomamos decisões é evitar cair em falsas verdades.

A minha disposição por hoje acabou (culpa da dengue) e preciso voltar para a cama.

One thought on “O truque do IPI zero”

  1. Fala Sérgio, putz… melhora aí meu caro!
    Achei interessante essa tua história do carro… sofri algo parecido. Mas eu tinha que trocar de carro… ele era de duas portas e estava sendo um estorvo. A vendedora disse pra mim que não fazia diferença no pagamento a prazo ou à vista. Sinal de que algo não está nos trilhos.

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