Quanto custam 20 centavos? – #movimentopasselivre


#movimentopasselivre #protestrorj

Ontem o clima ferveu aqui no Rio de Janeiro. Não vejo tanta gente assim na Av. Rio Branco desde, humm, desde o último carnaval. Além do número de pessoas, não havia nenhuma outra semelhança com a nossa maior festa do ano. Não vi gente bêbada. Não vi gente dançando. Ouvi gritos de protestos. Vi muitos cartazes com mensagens inteligentes. Com exigências que vão muito além da revogação do aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus.

O transporte público no Rio de Janeiro, mote principal desta onda de protestos, é uma vergonha. A PEC37 é uma vergonha. O custo da Copa do Mundo e o monopólio da FIFA são uma vergonha. A falta de infraestrutura no país é uma vergonha. Educação, segurança, saúde pública e, por incrível que pareça, a saúde privada são uma vergonha. O preço dos imóveis, do pão de queijo e do suco de laranja estão insanos. Não esgotei, pois, motivos para protestos não faltam.

Se compararmos os avanços recentes, o parágrafo acima parece injusto. Parece que somos um povo muito mal-agradecido: É inegável que a extensão da linha 2 do metrô no Rio de Janeiro até o bairro de Botafogo diminuiu muito o tempo de deslocamento destes passageiros. As 30 novas composições de trens urbanos da SuperVia com ar condicionado e conforto foram uma ótima melhora. Atualmente, aqui na cidade, andar de trem é melhor do que de metrô. O BRT está quase em pleno funcionamento e será uma boa alternativa para quem mora em Jacarepaguá e Recreio.

A infraestrutura do país está melhorando: A usina de Belo Monte, a quadruplicação da Rodovia Pres. Dutra, a duplicação da BR-101 lá na Paraíba estão ajudando muita gente. Por causa da Copa do Mundo, teremos estádios modernos, crescimento da rede hoteleira e vários projetos de urbanização na cidade.

Sobre os avanços na educação… vou pular essa parte.

A saúde pública e a privada, aqui na cidade, estão equivalentes. Enquanto o atendimento público melhorou com a instalação das UPA’s, a saúde privada piorou, provavelmente, com o crescimento do número de pessoas assistidas por planos de saúde. O povo agora prefere ir para o hospital particular e desestressou a saúde pública.

As UPPs viraram referência em modelo de segurança pública. A sensação de segurança voltou.

O país cresceu economicamente e o povo também cresceu. O real valorizado e os últimos aumentos reais nos salários fizeram com que o povo passasse a viajar pelo mundo afora. E, ao conhecer o primeiro mundo, vimos que existe um mundo muito, mas, muito melhor. Para viver num mundo melhor, a solução antiga era individual: Era sair daqui. Ir trabalhar e fazer a vida lá fora. Mas a crise externa, que começou em 2008, o primeiro mundo fechou as portas.

O Brasil saiu ileso dessa crise e o contrário começou a acontecer: Os estrangeiros que começaram a chegar aqui. O Brasil deixou o status de país em desenvolvimento para emergente. Há pleno emprego e agora precisamos de mão de obra qualificada. Somos um candidato a primeiro mundo. Eventos como Copa do Mundo, Olimpíadas. Artistas internacionais cada vez mais frequenta isso aqui. Até o Justin Bieber. O governo precisou agir para impedir o excesso de entrada de dólares, pois, o mundo inteiro está apostando no Brasil. E o povo acreditou que o primeiro mundo agora é aqui.

De repente, algo estranho começa a acontecer: os planos para mudar para um imóvel maior, digno de primeiro mundo, desapareceram em 2010. Desde então, as construtoras só lançam no mercado imóveis pequenos. E caros! Logo em seguida, as viagens começam a ficar raras: Os hotéis em todo país estão sempre lotados. Lugares simples, como Penedo (Itatiaia/RJ) e Rio das Ostras/RJ onde trabalhadores mortais frequentavam com uma certa frequência ficaram inacessíveis devidos às inacreditáveis diárias que chegam fácil aos R$300,00. O IPI de carros e eletrodomésticos da linha branca são reduzidos mais uma vez. Como o povo já tem geladeira, duas televisões e um forno de micro-ondas, como não dá comprar um imóvel digno e nem viajar, então, trocamos o carro velho por um modelo mais novo. Tudo vai bem, pagamos as longas prestações do carro e ainda juntamos um dinheirinho na poupança até que o colégio particular das crianças aumenta mais de 10%. O pão francês de cada dia aumenta 4 vezes no mesmo ano e chega a R$9,40 o kilo, um lanche completo no Mc Donalds vai para R$18,00. O almoço no centro da cidade também chega rápido aos R$35,00/Kg, o salgado com refresco já custam R$4,00. O preço da coca-cola dispara com o aumento dos impostos. A viagem internacional fica mais cara com o aumento do IOF do cartão de crédito internacional. O tomate dispara. O feijão também já começa a beliscar os R$4,00/Kg. O leite já aparece na casa dos R$3,00/litro. O estádio do Engenhão, novinho, inaugurado em 2007 para os Jogos Panamericanos fecha por problemas de engenharia. O comércio no entorno de uma comunidade com UPP fecha as portas por ordem do tráfico. O dólar dispara por aversão à risco. O Brasil virou investimento de risco? Caramba! Pagar aquela prestação do carro já não está tão fácil. Ontem fui assaltado na rua, comprei outro celular, agora mais barato. Por isso a foto acima ficou uma droga. E todo mundo quieto. E todo mundo assistindo. Até que um dia, o transporte público aumentou apenas 20 centavos.

Nesse dia, um grupo pequeno, com muitos jovens, conhecido como Movimento Passe Livre, vai para as ruas protestar por causa do aumento da passagem. O governo responde através da polícia que desce o cassete. Programas da TV e jornalistas chamam as pessoas do movimento de vândalos por reagirem à violência da polícia.

O grupo insiste. Voltam a protestar. A polícia, representando o governo nesse ato, bate de novo. O povo, incluindo eu, vendo que o governo reage tão violentamente por causa de apenas 20 centavos, sentem-se agredidos junto com esses jovens. Afinal, qual será a resposta dos nossos governantes quando exigirmos uma reparação de algo maior?

O grupo resiste de novo e ganha reforços que vêm da população. E o que vemos são jornalistas admitindo erros no seu julgamento e apoiando os protestos. Ontem, o povo entendeu perfeitamente o quanto valem esses 20 centavos. A “Marcha dos Cem Mil” foram às ruas. O pedido era simples: queda de apenas 20 centavos nas passagens.

Afinal, o que são 20 centavos perto dos gastos bilionários com estádios de futebol? Perto dos repasses bilionários do BNDES para empresas igualmente bilionárias? Comparado aos preços dos imóveis cuja especulação alimentada pelo governo deixou chegar a ponto de fazer com que um apartamento de 80m2 em lugares de classe média, como no bairro da Tijuca e Botafogo, chegassem na casa dos milhões? O que são 20 centavos? Se, diante de toda essa situação econômica decadente, o governo desce o cassete quando o povo pede apenas 20 centavos, como serão os desmandos governamentais se eles perceberem que o povo é fraco? Acho que foi por questões como essa que o povo resolveu ir às ruas e mostrar que é forte e que também está de olho e exigindo reparação em várias outras questões!

Eu que tirei a foto acima. Foi ontem mesmo, quando saí do meu trabalho. Tirei a foto e fui para casa. Eu queria, mas, não pude ficar pois tenho uma esposa e um filho me esperando em casa. Desculpem-me, eu não pude ficar. Não sou tão jovem. Mas eu admiro muito a resistência desses jovens pioneiros. Eu admiro muito aqueles que participaram ontem. O povo acordou, é forte e vai mudar o Brasil.

Fiquei até emocionado.

5 thoughts on “Quanto custam 20 centavos? – #movimentopasselivre”

  1. Lindo texto.Tenho 17 anos, participei de protestos na minha cidade e é extremamente emocionante ver tantas pessoas mobilizadas por ideais de revolução e (viva!) não carnaval. Parabéns pela escrita, o final me emocionou tanto quanto estar no meio do povo nas manifestações.

    1. Se o que ela falou dos Fundos de Pensão aplicando em Derivativos e do Fundo Social do pré-sal que dependerá dos rendimentos de aplicações no exterior for verdade, a coisa é muito séria. E olha que esse vídeo que você postou é do mês março de 2013.
      Ela falou da CPI da Dívida que aconteceu em 2009. De fato, eu nunca tinha ouvido falar nisso. Um verdadeiro absurdo como o Brasil se endividou mal.
      Esse vídeo é bem informativo! O país está afundado em dívidas. O pior que é uma dívida puramente financeira. O dinheiro não serviu para construir nada de concreto para o país crescer.

  2. Mais uma…
    A dívida do Brasil saltou de 59% no final do governo tucano pra 68% do PIB em 2012 no governo do PT, e continua crescendo!
    O Brasil ganhou um incômodo título: desde o ano passado, é o país com a maior dívida bruta entre os grandes emergentes. Emergentes??… tá!

    O quadro consta do Relatório Anual do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) realizado com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).
    A dívida bruta brasileira deve terminar o ano em montante equivalente a 68% do tamanho da economia, bem acima do patamar de 40% considerado “seguro” pelo BIS.

    Desesperado, Guido Mantega enviou uma carta para Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, na quinta-feira passada.
    Nela, pede por mudança na metodologia para o cálculo da dívida bruta brasileira, que é a soma de todos os débitos do governo federal, estados, municípios e estatais.
    Pela metodologia adotada, somente pelo Banco Central do Brasil, ficaria em 59% do PIB.

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